O velório no interior pernambucano
Vamos notando que dia a dia o interesse pelas coisas do interior vai aumentando cada vez mais. Já é comum nos jornais e revistas saírem artigos, pinturas das nossas coisas regionais. O povo já vai tomando conhecimento do que acontece dentro de casa, ou seja, no interior propriamente dito, o que era raro o escritor que trazia a lume os nossos costumes regionais. É preciso que se lembre antes de tudo, que, no interior do Brasil e mui principalmente no nordeste, existe muita coisa ainda por se desvendar aos olhos do público. Esta geração renovadora que era luta pelas nossas coisas, vinha aos poucos trazendo belas páginas do nosso regionalismo.
Aqui em Pernambuco, na Zona da Mata, Agreste e Sertão, é muito comum quando um trabalhador entrega a sua alma ao criador, o povo que mora nas adjacências organizarem um "velório", que na linguagem do povo do interior define-se por "quarto de defunto". As pessoas chegam silenciosas, contritas como a ocasião exige. Quase sempre só as pessoas pobres é que fazem quarto a defunto com rezas e ladainhas. É um choro que lembra as capideiras da Índia. Todas as rezas são cantadas, e as vozes em uníssono, se ouvem dentro da noite, a uma distância que varia de conformidade com o ambiente em redor.
Aqui no sul de Pernambuco, na zona canavieira por excelência, quando morre algum morador de engenho, os parentes se dirigem ao delegado de polícia e pedem licença para rezar num "quarto de defunto". Com a permissão do delegado, vão então até a "budega" e compram oito ou dez garrafas de aguardente ruim e um ou dois quilos de bolacha popular ou comum. Passam então a noite toda cantando as ladainhas e ofícios, tomando aguardente e comendo bolacha. Aqui e acolá surge um gaiato que torna o "quarto" menos pesado. Uns e outros começam a contar anedotas de gente que já morreu e que na hora de descer para a cova voltou à vida. A viúva nem tempo tem de chorar. Servindo a uns e outros, às vezes se esquece até do finado. Lá para as tantas da noite, homens e mulheres já meio embebedados, já não sabem o que estão cantando. Há reclamações de algumas, pelo descaso que se está fazendo com o morto. Já ninguém que se entende. Só o pobre do defunto é que não reclama. Deitado numa cama de lona imunda, sem forro, coberto com um "tacaruna", impassível na sua rigidez cadavérica, já começa a exalar um odor nauseabundo que aos poucos vai tomando conta do ambiente.
Alguém se lembra então de por debaixo da cama uma lata cheia de brasas queimando insenso para amenizar a catinga. Quase todos que chegam ao limiar da porta, fazem logo o "pelo sinal" e fazem as perguntas de praxe; – de que morreu? – é homem ou mulher? E, ato contínuo, descobrem a cabeça do morto. Duas velas de sebo ficam a arder à noite inteira. Canta-se, bebe-se e come-se.
Não sabemos porque motivo ficou arraigado no espírito do nosso povo esse ritual de cantos. Não sabemos a origem. Num "quarto de defunto", aqueles que sabem ler, é que têm a primazia de tirar as ladainhas e ofícios.
Tirar é o modo de se dizer começar a cantar e o resto acompanha com o coro. Começa então com o Pranto de Nossa Senhora das Dores.
"Estava a mãe dolorosa
....
Enquanto o filho pendia
Sua alma cruel espada,
Que lhe foi profetizada.
Tiranamente faria.
Todos então respondem, numa só voz, que se ouve a quilômetros de distância:
Tende misericórdia Senhora
Tende misericórdia de mim."
Terminado o Pranto de Nossa Senhora das Dores, outro então começa a cantar o Padecimento de Jesus Cristo:
"É uma quinta feira meu Jesus foi para o horto
Foi fazer três horas de oração
Indo os judeus na frente de uma tropa
Indo ela nas horas do capitão
O coro responde:
Misericórdia meu Deus, misericórdia
Misericórdia meu Deus de piedade"
Terminada esta ladainha, outro então começa a cantar uma incelência. É um canto que começa de um até sete ou então dez ou quinze pés, de conformidade com a força dos que estão cantando. Todos os versos se repetem, mudando apenas o número.
A incelência da Virgem do Rosário, nunca deixa de aparecer nestes momentos por ser de devoção de todos. Começam então:
"Uma incelência da virgem do Rosário
Sacrários abertos o senhor saiu fora
Acompanha esta alma que vai para a glória.
Duas incelência da Virgem do Rosário
Sacrários abertos o Senhor saiu fora
Acompanha esta alma que vai para a glória."
E continua assim até sete, dez ou quinze como já disse. Não há coro para resposta. Todos cantam. No silêncio da noite, ouve-se aquela lamúria soturna que faz arrepiar cabelos aos medrosos. A noite já vai bem avançada. Todos cansados de cantarem, beberem e com sono, já não têm mais força para cantar outra ladainha. Vão cantando as incelências que são numerosas por serem de mais fácil interpretação. Outra incelência se faz ouvir:
"Uma incelência pra ele
Desce um anjo do céu vem lhe vê
Espere aí meu anjo do senhor
Eu vou pro céu mais você"
E continuavam como na anterior. Os ânimos já vão se arrefecendo. Ao longe já se divisa a barra do dia que vem quebrando. Vão aos poucos se retirando. Por fim, só restara o morto e a família. Daí por diante, já dia claro é só cuidar do enterro. A alma daquele já foi bem encomendada com tanta ladainha, incelências e ofícios.
É assim o nosso interior. Motivos estes que ninguém sabe de onde vieram. O nosso povo é cheio dessas coisas que bem pouco compreendem. Mas não deixa de ter a sua beleza. É uma demonstração de fé. Fé simples e pura desse povo que tão bem sabe amar a Deus. E por aí afora há muita coisa ainda para se desvendar. Para se dar conhecimento a muitos professores das grandes cidade, que conhecem o mundo inteiro, mas que não conhecem ainda os costumes da nossa gente do interior.
Aqui em Pernambuco, na Zona da Mata, Agreste e Sertão, é muito comum quando um trabalhador entrega a sua alma ao criador, o povo que mora nas adjacências organizarem um "velório", que na linguagem do povo do interior define-se por "quarto de defunto". As pessoas chegam silenciosas, contritas como a ocasião exige. Quase sempre só as pessoas pobres é que fazem quarto a defunto com rezas e ladainhas. É um choro que lembra as capideiras da Índia. Todas as rezas são cantadas, e as vozes em uníssono, se ouvem dentro da noite, a uma distância que varia de conformidade com o ambiente em redor.
Aqui no sul de Pernambuco, na zona canavieira por excelência, quando morre algum morador de engenho, os parentes se dirigem ao delegado de polícia e pedem licença para rezar num "quarto de defunto". Com a permissão do delegado, vão então até a "budega" e compram oito ou dez garrafas de aguardente ruim e um ou dois quilos de bolacha popular ou comum. Passam então a noite toda cantando as ladainhas e ofícios, tomando aguardente e comendo bolacha. Aqui e acolá surge um gaiato que torna o "quarto" menos pesado. Uns e outros começam a contar anedotas de gente que já morreu e que na hora de descer para a cova voltou à vida. A viúva nem tempo tem de chorar. Servindo a uns e outros, às vezes se esquece até do finado. Lá para as tantas da noite, homens e mulheres já meio embebedados, já não sabem o que estão cantando. Há reclamações de algumas, pelo descaso que se está fazendo com o morto. Já ninguém que se entende. Só o pobre do defunto é que não reclama. Deitado numa cama de lona imunda, sem forro, coberto com um "tacaruna", impassível na sua rigidez cadavérica, já começa a exalar um odor nauseabundo que aos poucos vai tomando conta do ambiente.
Alguém se lembra então de por debaixo da cama uma lata cheia de brasas queimando insenso para amenizar a catinga. Quase todos que chegam ao limiar da porta, fazem logo o "pelo sinal" e fazem as perguntas de praxe; – de que morreu? – é homem ou mulher? E, ato contínuo, descobrem a cabeça do morto. Duas velas de sebo ficam a arder à noite inteira. Canta-se, bebe-se e come-se.
Não sabemos porque motivo ficou arraigado no espírito do nosso povo esse ritual de cantos. Não sabemos a origem. Num "quarto de defunto", aqueles que sabem ler, é que têm a primazia de tirar as ladainhas e ofícios.
Tirar é o modo de se dizer começar a cantar e o resto acompanha com o coro. Começa então com o Pranto de Nossa Senhora das Dores.
"Estava a mãe dolorosa
....
Enquanto o filho pendia
Sua alma cruel espada,
Que lhe foi profetizada.
Tiranamente faria.
Todos então respondem, numa só voz, que se ouve a quilômetros de distância:
Tende misericórdia Senhora
Tende misericórdia de mim."
Terminado o Pranto de Nossa Senhora das Dores, outro então começa a cantar o Padecimento de Jesus Cristo:
"É uma quinta feira meu Jesus foi para o horto
Foi fazer três horas de oração
Indo os judeus na frente de uma tropa
Indo ela nas horas do capitão
O coro responde:
Misericórdia meu Deus, misericórdia
Misericórdia meu Deus de piedade"
Terminada esta ladainha, outro então começa a cantar uma incelência. É um canto que começa de um até sete ou então dez ou quinze pés, de conformidade com a força dos que estão cantando. Todos os versos se repetem, mudando apenas o número.
A incelência da Virgem do Rosário, nunca deixa de aparecer nestes momentos por ser de devoção de todos. Começam então:
"Uma incelência da virgem do Rosário
Sacrários abertos o senhor saiu fora
Acompanha esta alma que vai para a glória.
Duas incelência da Virgem do Rosário
Sacrários abertos o Senhor saiu fora
Acompanha esta alma que vai para a glória."
E continua assim até sete, dez ou quinze como já disse. Não há coro para resposta. Todos cantam. No silêncio da noite, ouve-se aquela lamúria soturna que faz arrepiar cabelos aos medrosos. A noite já vai bem avançada. Todos cansados de cantarem, beberem e com sono, já não têm mais força para cantar outra ladainha. Vão cantando as incelências que são numerosas por serem de mais fácil interpretação. Outra incelência se faz ouvir:
"Uma incelência pra ele
Desce um anjo do céu vem lhe vê
Espere aí meu anjo do senhor
Eu vou pro céu mais você"
E continuavam como na anterior. Os ânimos já vão se arrefecendo. Ao longe já se divisa a barra do dia que vem quebrando. Vão aos poucos se retirando. Por fim, só restara o morto e a família. Daí por diante, já dia claro é só cuidar do enterro. A alma daquele já foi bem encomendada com tanta ladainha, incelências e ofícios.
É assim o nosso interior. Motivos estes que ninguém sabe de onde vieram. O nosso povo é cheio dessas coisas que bem pouco compreendem. Mas não deixa de ter a sua beleza. É uma demonstração de fé. Fé simples e pura desse povo que tão bem sabe amar a Deus. E por aí afora há muita coisa ainda para se desvendar. Para se dar conhecimento a muitos professores das grandes cidade, que conhecem o mundo inteiro, mas que não conhecem ainda os costumes da nossa gente do interior.
("O velório no interior pernambucano". Diário de Pernambuco. Recife,
29 de dezembro de 1949)
fonte:Revista Jangada Brasil
Bio
Curioso que eu não sabia de onde vinha o termo ladainha. :D
ResponderExcluirEngraçado...estavamos conversando ( cris, Dri e eu ) como esse regionalismo dá força às peças...pelo menos as que vimos... e opto por desconstruir as mulheres do velorio por lavadeiras....rsss
ResponderExcluir